Romances e Relacionamentos

terça-feira, 18 de setembro de 2012

O peso de uma paixão vazia


Era o que eu queria naquele fim de tarde, ficar sozinha.  Sem lembranças, sem preocupações, sem as dores, sem o mundo.  Sozinha.  Vazia.  Vazia.  Por alguns instantes, parar de existir, parar de respirar, parar de sentir o coração batendo, acelerado, vivo, repleto.  Só contemplar o momento, a brisa do parque batendo em meu rosto, as crianças correndo, os pássaros voando livres, o mundo acontecendo e eu apenas observando.




Convidou-me e eu sentei. Aqui, fique à vontade, querida, o que você quer beber?  A sala ampla, gelada, as paredes de um branco gelo, elegantes.  Os móveis modernos, luxuosos, o som ambiente, muitos quadros. 
Minha amiga no outro lado da sala conversava com um outro rapaz.
Minha mão gelada, fria.  A sala lotada de gente estranha e eu me sentindo desconfortável com aquele frio.  Não gostava disso em mim, de ser assim friorenta.  Uma fraqueza que não conseguia esconder.  Gostava era do sol, do calor, sentir as pessoas próximas, sentir o sangue pulsando, calor, calor...
- Whisky, respondi.  Sem gelo.
E ele sorriu, espontâneo, concordando com algo que nunca descobri.


A paixão é um laço forte, muito forte.
Muito forte, foi o que respondi quando ele perguntou se a bebida estava boa daquele jeito.
- Quer uma sugestão? Vou te preparar um drink.  Ele disse, simples, indo em direção às bebidas.  Bonito, vigoroso, elegante.  O dono de tudo, o dono do mundo.  Ele era assim, sua voz falava doce, gentil, como se no fundo pedisse carinho, pedisse cuidado.  Mas seus olhos, aqueles olhos traiçoeiros.  Olhos que não olham nos olhos mas dizem: não confie em mim, nunca confie em mim.

E eu confiei.

Ah, a paixão.  Feitiço.  Inquebrável?  Não...  Duradouro?  Também não.  Feitiço fadado à ruptura, feitiço fadado a um só coração partido, à cicatriz.


- Tenho uma surpresa pra você, ele disse, feliz.  As mãos abertas, dedilhando, como se me dissessem: adivinhe, adivinhe!  As mãos dele, as mãos dele que não me saem da memória.
Estávamos deitados na cama fofa e cheia de travesseiros.  Gelada.  Nossos corpos quentes naquela cama gelada.
- O que é?  Perguntei sorrindo.
- Um porta retrato com a foto de nós dois.
Sorri mais uma vez, emocionada.  Um rio pareceu invadir meu corpo.  Arrepiei-me de felicidade... 

Há tanto tempo vinha me queixando: um apartamento enorme daqueles sem foto nenhuma, desde o primeiro dia, na festa, tanta coisa, mas nenhuma foto, nem minha, nem da família, nem dos amigos, foto de nada, referência a ninguém, parecia uma pessoa só, sem história, sem raiz...  Quem é você, afinal? Por que tantos mistérios?

Mas aquela foto, a delicadeza daquela foto de nós dois no criado mudo falava para mim mais do que qualquer coisa. Cada um de seu gesto de entrega apagado por seu gesto de fuga, reacendia-se, magicamente, quando eu pensava na foto de nós dois lá em seu quarto, vendo tudo, vigiando tudo, mostrando nós dois pro mundo, ou para qualquer outra pessoa que entrasse ali (entravam, será? Sim... Não? Não sei. Mistérios).  Aquela foto me supria do concreto que seus gestos vagos não me ofereciam.  Eu e ele.  De alguma forma, o eu e ele existia, ao menos naquele momento eternizado, naquela foto.




A noite chegava num lilás negro, a lua era cheia e o céu estrelado. 
Meu celular toca.
- Amiga, vamos sair?  Tem uma festa de aniversário de um conhecido de um amigo do trabalho... Festão no apartamento dele, só gente bonita, vamos!  Você precisa se animar.
Olhei para o céu, aberto e vivo.  Senti uma brisa quente. Não vá.  Ou vá?  Eu fui.  Sem vontade, mas fui...  Sem saber que ali meu destino mudava...





Estávamos num bar escuro naquela noite, como ele gostava, elegante e frio, gelado.  Beijavamo-nos como dois adolescentes que se amam, quando eu lhe disse que estava muito feliz ao lado dele e ele só respondeu: eita que mão fria, menina!
E eu notei sua ausência tão presente.  Mas fingi que não.
Logo em seguida, quando ele falava de sua viagem um dia depois, e eu perguntei, como sempre: quando a gente se vê de novo, hein?  Ele respondeu perguntando: por que pra você tudo tem que ter um quando?  Seja mais leve, relaxe mais, deixe as coisas acontecerem.

Várias vezes eu o ouvi falar aquela frase, como se tivesse propriedade do verdadeiro sentido de ser leve, ou frases parecidas.  Talvez no fundo, não quisesse pergunta nenhuma minha, nem qualquer tipo de frase que de alguma forma lhe pedissem uma resposta... Não quisesse se comprometer. Mas, todas as vezes, tentei disfarçar, tentei fingir-me de desentendida, até de burra, cada pessoa é de um jeito, eu dizia para mim mesma, como consolo.  Tantas críticas.  Sabia que de certa maneira, gostávamos um do outro, algo em mim o encantava, mas ele não conseguia, não conseguia me entender, nem se dispunha a isso...
Queria acreditar, no fundo queria era acreditar que eu precisava ser realmente mais leve, assim tudo seria mais fácil, que talvez eu estivesse mesmo cobrando muito dele, quando na verdade, eu não estava.
Lá dentro, eu compreendia: ele queria ou precisava de alguém com menos emoção.  O que ele entendia por leve, seria nada mais que uma pessoa mais vazia, que sentisse menos, que pedisse menos, mas que se entregasse mais.
- Você imagina demais, ele repetia.  Tem que pensar menos...




Numa viagem ele me disse pela primeira vez eu te amo e lua perolada pareceu brilhar mais forte no céu.  Olhei para seus olhos, seus olhos traiçoeiros e lembrei: não confie em mim, nunca!, mas mesmo assim eu disse: e eu também, você nem sabe o quanto.  Então ele encheu minha taça com seu espumante rosado, e eu beijei suas mãos, as mãos dele que não me saem da memória.

Ele era assim, como se uma corda prestes a romper, me amava num dia, no outro parecia me esquecer, criticando-me, buscando o avesso de tudo que eu era.  E eu vivendo certa na incerteza, dia após dia, esperando o concreto que ele não podia me dar...



No dia em que eu cheguei de surpresa no seu apartamento porque ele disse que queria muito me ver numa mensagem, ele me recebeu feliz, com um sorrisão ao abrir a porta.  Senti-me aliviada, ele não era um homem para surpresas, no fundo eu sabia...
No fundo eu sabia, foi o que eu gritei para ele histérica, quando procurei desesperada a foto que agora estava virada para baixo na última gaveta do criado mudo.
- Mas por quê?  Mas por quê?  Eu perguntava, inconsolável.
Ele gaguejava algumas desculpas esfarrapadas como a faxineira ou a sobrinha, não me recordo direito, segurando meus braços, assustado, acostumado com minha aceitação resignada, porém de fato fingida,  mas ali foi um dos momentos quando aquela voz lá dentro lhe confirma o que provavelmente já lhe disse tantas vezes e você não quis escutar.  A verdade.

Fui embora do apartamento sem olhar pra trás enquanto ele gritava: volte aqui!  Volte aqui agora!


Sentei-me no banco do parque observando o mundo que nos mostrava emoção em tudo, que, como eu, via emoção em tudo!  Como eu via emoção em tudo! 
Mas já não queria sentir, não queria sofrer...
Por que eu teria que me livrar do que eu mais me orgulhava em mim mesma? A minha doce forma sentimental de ver as coisas do mundo.

Deitada em minha cama quente, no meu quarto quente, acolhedor, eu então compreendi que talvez nós dois jamais déssemos certo mesmo.  Enquanto eu era alguém sensível que considerava a emoção algo tão real e importante que chegava a ser palpável, ele vivia num mundo superficial, de segredos, mentiras, sem a verdadeira entrega, sem a entrega que o amor exige.
 O amor exige entrega.

Essa era a verdade.

Senti meu coração inundado, mais pesado que o mundo, abrindo cicatrizes antigas, supostamente esquecidas, naquele momento sem saída quando elas voltam, lembrando que mais uma vez não deu certo, você foi ferida de novo, a dor parece que não vai acabar nunca, nunca... O peso insuportável daquela paixão vazia esmagando meu peito sofrido.

O peso de uma paixão vazia era grande demais para eu suportar!

Foi então que descobri, que numa certa altura da vida, quando você quer sossegar, quando você já conheceu o bom e o ruim do amor e mesmo assim você entendeu que ele ainda vale a pena, quando você não quer mais paixões vazias, quando você sabe que amadureceu e tem consciência do que merece, viver um romance vazio pode lhe deixar ainda mais machucada... Que em certas alturas da vida, alguém lhe fazer esperar o que não há mais para esperar faz com que as cicatrizes doam mais que antes e que demorem mais que antes também para sarar...

Não quero mais paixões vazias, pensei comigo mesma. Decidida. Não quero mais paixões vazias...  Nunca mais.


Ia doer, eu sabia, ia doer muito ter que esquece-lo.  Mas eu ia conseguir.  Antes que meu peito esfriasse de tanta decepção ou antes que eu nunca mais pudesse me entregar de verdade a outro alguém, eu precisaria entender que sou alguém inteira e sensível, e que preciso de alguém que reconheça e valorize isso.


Por um segundo, todo o peso do mundo e daquele sentimento saíram de mim...

E eu me senti mais leve que nunca...


Escrito em 18.09.12

5 comentários:

  1. Maravilhoso! Simplesmente maravilhoso!

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  2. Amo os seus textos Barbara, parabéns !

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  3. Babinha, que coisa linda! Parabéns!
    Adorei.
    Parabéns!
    Beijinhos
    Jany

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  4. tassia alexandre lima5 de outubro de 2012 07:01

    me fez pensar nas coisas da vida.sempre muito emoção.
    com quanos pensamentos fiquei depois de ler.queria muito conversar com você sobre minhas experiências parecidas

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